Programa 604 - Santa Isabel do Rio Negro
Embarcamos para pescar e conferir a dura vida dos ribeirinhos
26/03/2010 - 12:22
via Terra da Gente
via Terra da Gente
O Terra da Gente deste sábado (27) faz uma viagem a um dos pontos mais isolados da Amazônia: Santa Isabel do Rio Negro, distante 620 quilômetros de Manaus e sem ligação por terra com a Capital. Os 17 mil habitantes dependem do rio Negro para tudo. Para os ribeirinhos isolados, o barco é transporte, meio de vida e até casa flutuante. Famílias inteiras passam semanas fora de casa para tirar sustento das águas. Os repórteres do Terra da Gente flagram uma criança de seis anos no comando de um barco e embarcam na viagem mais longa e mais perigosa pelo barco recreio - o coletivo do rio Negro. No auge da seca, o barco não tem dia certo para chegar ao destino, mesmo que não encalhe. Outra aventura de barco é vencer os obstáculos naturais de um igarapé raso e alcançar uma lagoa cheia de cardumes. A recompensa é um troféu amazônico, um tucunaré-açu de 9 quilos. Em Barcelos, a atração é o morador mais velho da cidade, seu Marat, 92 anos, um caboclo cheio de histórias e muita disposição. Estas e outras aventuras amazônicas foram vividas e são contadas pelos repórteres Eduardo Sozo (texto) e Erlin Schmidt (imagens).
Santa Isabel
Quando o Sol desponta no horizonte, não é só um novo dia que nasce, é mais um desafio que começa nos confins da Amazônia, lugar onde a natureza fascina, tanto quanto a valentia dos nativos. São como formiguinhas encarando um gigante. Na imensidão do rio Negro, o pescador quase some. Uma jornada por essas águas mais parece uma epopéia, de coragem e paciência.Atrás da subsistência, eles passam dias a fio fora de casa. A solidão só diminui quando a família vai junto. Enquanto a mulher e as filhas aguardam na margem, Antônio trabalha para tirar o sustento de todos. Ele chega a ficar 15 dias longe de casa.
A rede é lançada no rio às cinco da manhã. Poucas horas depois, o barco já tem muito peixe. A pescaria costuma ser farta no rio Negro. O pescador Alberto Menezes Gonçalves disse que já chegou a pegar 80 quilos por dia.Todo esse peixe tem que ser salgado para a venda. A distância impede que seja transportado fresco até o destino, o município de São Gabriel da Cachoeira, no alto Rio Negro. O transporte dura 4 dias, em média.
A seca prejudica a navegação nos rios amazônicos. Em 2009, o rio Negro chegou a ficar três metros abaixo do menor nível médio registrado no período da vazante, de acordo com a Agência Nacional de Águas. Uma das piores secas desde que foi iniciada a medição, em 1902.
As distâncias em Santa Isabel se medem em horas e não em quilômetros. As águas é que ditam o ritmo de vida dos ribeirinhos. Sem ligação por terra com a Capital do Amazonas, e outras cidades do Estado, eles dependem do rio pra tudo. Os barcos fazem parte da rotina de quem vive isolado no meio da floresta.O porto de Santa Isabel do Rio Negro, município de 17 mil habitantes, fica a 620 quilômetros de Manaus. O vai-e-vem de barcos revela como é importante o principal meio de transporte da região. Canoas partem lotadas de gente, por uma das principais estradas flutuantes da Amazônia.
O deslocamento fica bem mais cansativo quando o barco não é motorizado. É com a força dos braços que esses agricultores escoam a produção. Remam numa imensidão sem fim. Os maiores municípios amazônicos têm territórios que superam os de muitos países.
A área de Santa Isabel do Rio Negro, que só perde em tamanho para outros dez municípios brasileiros, é duas vezes maior que a da Bélgica, tem 30.528 km².
Rotina difícil, com poucos recursos
Bravura é uma virtude de quem mora nessas condições. Antônio, que é agricultor, usa um pedaço de pano como atadura na perna. Sofreu um corte profundo durante o trabalho na roça. Na falta de remédio tem que sarar com a fruta da natureza.Os ribeirinhos se adaptam fácil à carência de recursos. Basta uma cobertura de sapé, e o barco se transforma em casa.
As viagens costumam ser longas. E as canoas têm que ser resistentes. Na que encontramos num dos afluentes do rio Negro vão 10 pessoas, descendentes de índios da etnia Baniua, e mais dois cachorros. É difícil de acreditar, mas a canoa suportaria mais peso, se fosse necessário.
Cada parada é diversão na certa. Que delícia! As crianças são as que mais curtem o banho de rio. Nem o pequeninhos ficam de fora. O menor tem apenas um ano de idade. Das sete crianças, quatro são filhos de Derlene, uma artesã que faz peças com a fibra da piaçava. Por dia ela faz dois balaios.Um dos passatempos das crianças durante a viagem está nestas panelas. São filhotes de irapuca, uma espécie de tartaruga comum nessa região da Amazônia.
É hora de partir para a família de Derlene e Marco. Mais adiante no mesmo rio, somos surpreendidos por outra imagem marcante. No leme do barco está um menino de apenas seis anos. Ele conduz sozinho a embarcação. Wellington tem uma deficiência física no pé. O que não atrapalha em nada uma criança que tem facilidade para aprender. Foi o pai quem o ensinou a navegar. Hoje o filho é o braço direito dele.
Admirado na comunidade onde vive, Wellington simboliza a força do povo amazônico. Gente que, em vez de se queixar, vai à luta mesmo nas condições mais extremas para vencer o desafio diário que a floresta impõe ao homem.
Todos a bordo: começa a viagem mais longa pelo rio Negro
Atracado no porto de Santa Isabel, o barco recreio enche em questão de minutos. O principal meio de transporte da região passa só uma vez por semana na cidade. Quem embarca nessa viagem tem que levar muita bagagem. É gente que vai ficar um bom tempo longe de casa.A partida é debaixo de chuva. O barco deixa a cidade para trás, sob o olhar de amigos e parentes. Conforto dentro da embarcação, só nas redes trazidas de casa. Elas ocupam a maior parte do convés. O bebê viaja tranquilo.
A viagem só não é uma tortura com a mente ocupada. Os idosos são os que mais sofrem. Em muitos casos, eles não têm escolha. É questão de sobrevivência, a saúde está em jogo. Para quem mora no meio da floresta, como um grupo de senhoras, chegar até o médico pode ser tão demorado quanto marcar uma consulta. O rio Negro é o caminho de pacientes que precisam de um especialista ou um exame mais sofisticado.
No período da vazante, entre setembro e fevereiro, essa viagem tem hora marcada para começar, mas não para terminar. É o nível da água que diz quando os passageiros vão chegar ao destino. Quanto mais baixo está o rio, mais difícil fica a navegação. Aqui dentro é preciso esperar pacientemente. Não é só uma viagem. É também uma aventura.
Quem embarca nela se sente como um desbravador. Viajante do presente com o olhar atento ao que restou do passado. Exemplo é um casarão restaurado, que foi construído por colonizadores do rio Negro, é hoje um monumento à coragem dos antepassados.Ao contrário dos lugares onde o avanço da civilização desfigurou paisagens, aqui o cenário permanece igual há séculos. Horizonte verde e obstáculos escondidos no fundo do rio.
Na vazante, há trechos tão rasos onde só a perícia do timoneiro não basta. O barco viaja apenas com a luz do dia e ainda é preciso uma lancha de apoio. Com uma vara, um encarregado procura um lugar com profundidade segura para que o barco não encalhe.
Levar a embarcação em segurança até Manaus é o desafio dos tripulantes na última viagem antes do início da cheia. O risco de um acidente tira o sono de quem conhece o perigo que o rio Negro oferece nos períodos mais secos.
Desta vez é uma viagem sem sustos, apesar dos imprevistos. Depois de 31 horas de navegação, a floresta deixa de ser exclusiva aos olhos dos passageiros.
Chegada a Barcelos
Na margem direita do rio, surge Barcelos, principal pólo de pesca esportiva do amazonas. A primeira parada da viagem é o ponto de desembarque para nossa equipe. A cidade já foi capital do Estado. Mas quando o Brasil ainda era colônia. A perda dessa condição fez Barcelos parar no tempo. Hoje tem pouco mais de 25 mil habitantes. E tranquilidade de sobra para gente como José Marat Girão.Num Estado onde a expectativa de vida é menor que a média nacional, ele pode se considerar um herói. O Norte do País é a região com o mais baixo percentual de idosos que ultrapassam os 75 anos, apenas um por cento da população (1,3%)
Fora a deficiência auditiva, a saúde dele é de ferro. O segredo para chegar aos 92 anos tão forte não inclui nada de remédios, só uma rotina bem regrada.
O morador mais velho de Barcelos se orgulha da saúde que tem e da família numerosa. São 26 filhos, 40 netos e 22 bisnetos. A explicação para uma prole tão numerosa está na fama de conquistador.
Uma das conquistas está com ele até hoje. Maria Tereza é 15 anos mais nova que o marido. O conheceu ainda adolescente e fugiu com o então namorado sem o consentimento do pai e dos irmãos.Seu Marat não é homem de se intimidar por nada. Tanto é que nunca levou desaforo pra casa. As cicatrizes espalhadas pelo corpo não o deixam mentir.
É um exemplo de como envelhecer sem perder o espírito jovem. Num lugar do Brasil onde a vida cobra o preço pelas dificuldades do isolamento, eis um fenômeno de resistência e bravura.
E o futuro?
O que o futuro reserva para essas crianças? Filhos da Amazônia, moradores da periferia de Barcelos. Gente que vive longe do desenvolvimento. Num lugar onde a maioria das famílias tira o sustento do rio Negro.
Durante a temporada de pesca esportiva, o turismo responde por parte dessa renda. A oferta de emprego aumenta com a presença dos barcos-hotéis. Há muito trabalho para os guia de pesca. Mas o serviço é só durante seis meses do ano.Fora da temporada a solução é a pesca de peixes ornamentais. Cerca de duas mil famílias dependem da pesca de peixes ornamentais em Barcelos. Atividade que não é exclusiva dos homens. Há muitas mulheres que sobrevivem desse tipo de pesca artesanal.
Aracélia e Jânia são irmãs. Tem dias que saem de casa ainda durante a madrugada para capturar os peixes que ajudarão na renda da família.Além da coragem, é preciso muita técnica. Cada espécie tem um segredo para ser capturada. Com prática, Jel, que também pesca os peixes ornamentais, logo enche o rapiché, instrumento usado pelos pescadores.
O cardinal é o peixe ornamental que mais sai do rio Negro para os aquários do mundo inteiro. Virou símbolo na cidade, assim como o acará-disco. De cores vibrantes, esses peixes são personagens de um festival que todo ano agita Barcelos. Famosos por aqui, cobiçados no exterior.
Depois de capturados, os peixinhos ficam pelo menos um mês em viveiros, onde ganham tamanho para depois serem transportados para Manaus e exportados.Um comércio que já foi forte hoje sofre com a concorrência. Criadores em países como a China passaram a reproduzir os peixes ornamentais, e afetaram o mercado brasileiro.
A queda na exportação dos peixes ornamentais provocou uma crise sem precedentes em Barcelos. O reflexo pode ser visto nos depósitos, que até três anos atrás costumavam ficar lotados, hoje a gente encontra mais caixas vazias do que cheias. No caso deste depósito, a quantidade de peixes vendidos caiu setenta por cento.
Antes era uma faixa de 800 caixas por semana. Hoje mandam umas 200, 300 caixas, de cardinal, e com seiscentos peixes em cada uma. O preço também caiu. O acará-disco era vendido por quatro reais, hoje cada unidade é vendida por um real. O cardinal e o milheiro estão 16 reais. Já chegaram a ser vendidos por até 20 reais. Com isso a renda dos pescadores caiu bastante.
A presidente da colônia de pescadores de Barcelos está preocupada com a situação. Teme pelo futuro de quem depende da atividade econômica. Tem gente que ainda resiste, com a esperança de dias melhores. Uma saída para compensar a queda na exportação seria abrir novos mercados dentro do País.
Bichos do rio Negro
A água é o espelho da vida no rio Negro. Reflete a natureza selvagem da Amazônia. O paredão verde protege a maior biodiversidade do planeta, por mais que os olhos se esforcem à procura de bichos. Navegação com praia e mato ao fundo.É raro avistá-los na floresta. Mas não impossível. Os encontros costumam ser rápidos. Um casal de gaviões. Um martim-pescador. Um lagarto. Da água, a imagem que fica é a da perseverança.
O importante é não desistir. E ter disposição para chegar aos lugares mais remotos. Cada vez que entramos num igarapé, temos um novo desafio.O caminho é cheio de obstáculos, mas também de vida abundante. Impressionante a quantidade de cardumes. Há diversas espécies e tamanhos, como os de jacundás.
Emoção e fartura
Nossa equipe consegue pegar um tucunaré gigante. Ele tem nove quilos. “Esse aqui é pra guardar no álbum, hein, nunca peguei um tucunaré desse tamanho”, disse o repórter Sozo.O troféu do rio Negro é o prêmio maior para o pescador perseverante. A decepção de um peixe perdido só faz aumentar a empolgação de fisgar e soltar um gigante, do tamanho da nossa emoção!
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Como chegar:
Uma das opções de logística e estrutura de pesca esportiva em Santa Isabel do Rio Negro, no Amazonas, é a agência Pescapescador.
Tel. (19) 3443-3022
www.pescapescador.com
Programa Terra da Gente:
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Jardim São Gabriel - Campinas, SP
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