por Lúcio Flávio Pinto
Em 2002 a Eletronorte reapresentou à sociedade o projeto da hidrelétrica de Belo Monte, no Pará, com uma nova - e atraente - roupagem. Tentava assim vencer as resistências, que mantiveram a idéia congelada por mais de uma década. O custo da usina foi reduzido significativamente - e sem qualquer perda na capacidade instalada de geração de energia, o que permitiria colocá-la no ponto final de consumo com uma tarifa três vezes inferior à que então estava vigente no Centro-Sul do país.
Não seria mais preciso barrar o rio Xingu em cinco locais a montante, para armazenar água para o período de estiagem, a jusante, quando a vazão pode ser reduzida em até 100 vezes em relação ao pique das chuvas. Nem mesmo seria necessário formar um reservatório específico para Belo Monte: o lago artificial, inicialmente previsto para ocupar 1.200 quilômetros quadrados, ficaria em um terço dessa área, metade dela já coincidindo com as inundações anuais do Xingu às proximidades de Altamira.
A usina seria praticamente a fio d’água: embora o reservatório ainda contivesse 7,7 bilhões de metros cúbicos de água, esse volume representaria apenas 8% do lago da hidrelétrica de Tucuruí. Mais importante ainda: enquanto o volume de água útil no lago de Tucuruí é de 32 bilhões de m3, em Belo Monte seria zero. Toda água que chegasse iria passando para a casa de força principal ou a secundária.
No EIA-Rima (estudo e relatório de impacto ambiental), a área do reservatório de Belo Monte sofreu uma ligeira correção para 515 quilômetros quadrados. Mas no edital da licitação da obra, marcada para o dia 22, houve reajuste ainda mais acentuado, para 668 km2. A evolução, a partir da primeira versão do novo projeto, já passou de 50%. Embora em valores absolutos a diferença não seja tão expressiva, o percentual é alto demais para que a dança dos números transcorra sem explicações. E até mesmo sem cobranças, já que os opositores do projeto não parecem ter observado a mutação.
Mais um motivo -dentre vários- para que o licenciamento ambiental do projeto seja revisto, impedindo a execução da obra a toque de caixa, como acontecia quando o Brasil vivia em regime de ordem unida. Em regime democrático, o fator de convencimento tem que ser a verdade, produto que os promotores de Belo Monte ainda não apresentaram por completo.
publicada originalmente na edição 462 doJornal Pessoal, na primeira quinzena de Abril de 2010
via Adital
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